A subversão da norma e a produção de sentidos nos deslocamentos enunciativos

Stéfano Grizzo Onofre

Resumo


Um tratado de revisão gramatical sobre a obra de Machado de Assis concebe a não concordância da categoria de pessoa deflagrada pelo verbo em relação a seu respectivo sujeito apenas como uma infração das regras sintáticas. Dessa forma, desconsidera os efeitos de sentidos que tal mudança acarreta. Por meio da problematização dessa visão normativa pretendemos discutir
se é produtivo etiquetar como erro toda mudança de pronomes pessoais que infrinja uma norma. O trabalho de revisão da obra de Machado de Assis, desenvolvido pelo gramático Lima (1973), desconsidera a possiblidade de que a assimetria sintática no emprego de pronomes pode, em certas ocasiões, não comprometer o efeito de sentido do texto. Dessa forma o trabalho da gramática desconsidera a enunciação. Tal postura ilustra como a normatividade, no contexto de ensino e aprendizagem, pode desvalorizar a construção linguística dos alunos apenas considerando a forma e as regras sintáticas. O trabalho de Lima representa o purismo gramatical e, portanto, desconsidera que um enunciado pode ser aceitável mesmo que ele não esteja sintaticamente
padronizado. Tendo em vista essa dificuldade de padronização, questionamos como é possível exigir dos alunos a apropriação de seus textos se, muitas vezes, é-lhe privado o direito de operar com as marcas linguísticas? Defendemos, portanto, pautados na Teoria das Operações Predicativas e
Enunciativas (TOPE), a dificuldade em se demarcar com precisão, antes da manifestação de um enunciado, se uma ocorrência procede de um desconhecimento do código linguístico ou de uma subversão criativa do próprio código.


Palavras-chave


linguagem; enunciação; teoria e análise linguística; ensino e aprendizagem.

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