A moça tecelã: um texto instigante

Nelyse Apparecida Melro Salzedas, Rivaldo Alfredo Paccola

Resumo


A construção do texto de Colasanti (2012), “A moça tecelã”, versa sobre tecer um texto, o qual estamos tomando como objeto de análise da construção textual, cujo desenho é traçado pelo movimento das mãos da artífice manipulando a lançadeira, o tear, as linhas que constroem a escrita, a partir de seu grau zero, em decorrência da sua desconstrução. O fazer de um texto instigante como o de Marina Colasanti, apresentado no título, demanda uma série de leituras teóricas para acompanhar seu desenho construtor. Em vista disso, o objetivo deste artigo é analisar o fazer do texto. “Tecer era tudo que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer [...] e tecendo ela própria trouxe o tempo.”. Esse enunciado de Colasanti (2012, p. 12) pontua a construção de um texto, no qual cada laçada é um fonema e cada ponto construído é um sentido. Assim, recorremos a Genette (2010, p. 7) que investiga a produção do texto através do palimpsesto. O que é o palimpsesto? Para ele, é “um pergaminho cuja primeira inscrição foi raspada para se traçar outra, que não a esconde de fato, de modo que se pode lê-la por transparência, o antigo sob o novo.”. Essa leitura do antigo sob o novo foi feita no texto de Colasanti (2012), ilustrando a teoria de Genette, quanto à criação do texto. Desse modo, nos permitiu navegar pelo hipertexto e pelo hipotexto, construções da transtextualidade, que podem ser feitas pela transformação e pela imitação. Estudamos Genette também num texto de Borges, uma vez que o mesmo propõe que sempre houve um só texto e um só autor, pensando no hipertexto e no hipotexto. Essa estratégia de leitura permite que o texto não seja contado, mas ele se conte por si mesmo. Com as sucessivas raspagens, o leitor vai encontrar a origem, o texto primígeno; nesse percurso, vai perceber a transtextualidade, um texto entrando em outro texto.


Palavras-chave


hipertexto; hipotexto; palimpsesto; leitura palimpsestuosa

Texto completo:

PDF

Referências


BÍBLIA SAGRADA. Edição da Palavra Viva. Missionários Capuchinos de Lisboa. C.D. Stampley Inc., 1974.

BERNÁRDEZ, E. Introducción a la lingüística del texto. Madrid: Espasa-Calpe, 1982.

BORGES, J. L. Ficções. Tradução Carlos Nejar. 3. ed. São Paulo: Globo, 2001.

COLASANTI, M. A moça tecelã. In: COLASANTI, M. Um espinho de marfim e outras histórias. Porto Alegre: LP&M, 2012. p. 11-14.

GENETTE, G. Palimpsestes: la litterature au second degre. Paris: Éd. du Seuil, 1982.

GENETTE, G. Palimpsestos: a literatura de segunda mão. Extratos traduzidos por Cibele Braga et al. Belo Horizonte: Viva Voz, 2010.

HOMERO. Odisseia. Tradução Odorico Mendes. Antônio Medina Rodrigues (org.). Prefácio Haroldo de Campos. São Paulo: Ars Poetica / EDUSP, 2000.

KRISTEVA, J. Semeiotike: recherches pour une sémanalyse. Paris: Seuil, 1969. (Tel Quel).

LEJEUNE, P. Je est un autre: l’autobiographie, de la littérature aux médias. Paris: Seuil, 1980.

MARTINEZ, C. F. et al. Diccionario de la mitologia clasica 2. Madrid: Alianza Editorial, 1995.

RIFFATERRE, M. La production du texte. Paris: Seuil, 1979. (Poétique).

SARAMAGO, J. Manual de pintura e caligrafia. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

TICIANO (Tiziano Vecelli). The Rape of Europa, 1562. Óleo sobre tela (178 cm x 205 cm). Boston, EUA: Isabella Stuart Gardner Museum.

VELÁSQUEZ, D. O mito de Aracne (As fiandeiras), c. 1657. Óleo sobre tela (222,5 cm x 293 cm). Madrid: Museu do Prado.




DOI: https://doi.org/10.21165/el.v48i2.2253

Apontamentos

  • Não há apontamentos.


Direitos autorais 2019 Estudos Linguísticos (São Paulo. 1978)