A realização variável da segunda pessoa por bilíngues em vêneto e português em uma comunidade rural do Espírito Santo

Edenize Ponzo Peres, Maria do Socorro Vieira Coelho

Resumo


Este trabalho objetiva analisar as consequências do contato linguístico que ocorreu em uma comunidade do interior do Espírito Santo, colonizada por imigrantes provenientes do Vêneto, Itália, que ali chegaram no final do século XIX. Especificamente, investigamos o uso da 2ª pessoa do português por parte de quatro bilíngues em vêneto e português, netos desses imigrantes, sendo dois homens e duas mulheres, com idade acima de 57 anos e com baixa escolarização. Os dados foram coletados por meio de entrevistas sociolinguísticas, sendo analisadas cinco variáveis linguísticas e uma extralinguística. Os resultados apontam o emprego de você(s), de cê(s) e de ocê(s) pelos informantes. Nossos resultados não se alinham aos obtidos em outras comunidades brasileiras, evidenciando que, em situações de contato linguístico, a língua materna exerce influência variável na segunda língua, a depender dos fatores linguísticos e sociais envolvidos.

Palavras-chave


sociolinguística; contatos linguísticos; pronomes de segunda pessoa; vêneto; português

Texto completo:

PDF

Referências


ALI, S. Gramática histórica da língua portuguesa. 5. ed. São Paulo: Melhoramentos, 1965.

APPEL, R.; MUYSKEN, P. Bilingüismo y contacto de lenguas. Tradução Anxo M. Lorenzo Suárez y Clara I. Bouzada Fernández. Barcelona: Ariel, 1996.

BAKER, C.; JONES, S. P. Encyclopedia of bilingualism and bilingual education. Clevedon: Multilingual Matters, 1998.

BIGAZZI, A. R. C. Italianos: história e memória de uma comunidade. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 2006. (Série Lazuli - Imigrantes no Brasil)

BREMENKAMP, E. S. Análise sociolinguística da manutenção da língua pomerana em Santa Maria Jetibá, Espírito Santo. 2014. Dissertação (Mestrado em Linguística) – Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, 2014.

BORTONI-RICARDO, S.-M. Do campo para a cidade: estudo sociolinguístico de migração e redes sociais. São Paulo: Parábola, 2011.

CALMON, E. N. Ponte da passagem: você e cê transitando na fala de Vitória (ES). 2010. Dissertação (Mestrado em Linguística) – Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, 2010.

CÂMARA Jr., J. M. História e estrutura da língua portuguesa. 2. ed. Rio de Janeiro: Padrão, 1976.

CINTRA, L. L. Sobre Formas de Tratamento na língua portuguesa: ensaios. Lisboa: Horizonte, 1972.

COELHO, M. do S. V. Uma abordagem variacionista do uso da forma você no norte de Minas. 1999. Dissertação (Mestrado em Letras: Linguística) – Faculdade de Letras, Universidade Federal de Minas Gerais. 1999.

COELHO, M. do S. V. Os gurutubanos; língua, história e cultura. 2010. Tese (Doutorado em Linguística e Língua Portuguesa) – Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, 2010.

COELHO, M. do S. V. De Vossa Mercê a cê no português brasileiro: da gramática ao discurso. Revista Vertentes, São João del Rei, v. 32, p. 221-230, 2008. Disponível em: www.ufsj.edu.br/vertentes/edicoes.php#. Acesso em: 02 jan. 2009.

COMINOTTI, K. S. S. O contato linguístico entre o vêneto e o português em São Bento de Urânia, Alfredo Chaves, ES: uma análise sócio-histórica. 2015. Dissertação (Mestrado em Linguística) – Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, 2015.

CONDE, B. S. Senhores de fé e de escravos: a escravidão nas fazendas jesuíticas do Espírito Santo. In: Anais do 4º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional. Curitiba: UFPR, p. 01-10, 13-15 maio, 2009. Disponível em: http://bit.ly/2Jvdguw. Acesso em: 03 mar. 2014.

COOK, M. Uma teoria de interpretação das formas de tratamento na língua portuguesa. Hispania, n. 80, p. 451-464, set. 1997.

COULMAS, F. Sociolinguistics: the study of speakers’ choices. Cambridge: Cambridge Press, 2005.

COUTINHO, I. de L. Pontos de gramática histórica. 7. ed. rev. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1976.

COUTO, H. H. do. Linguística, ecologia e ecolinguística: contato de línguas. São Paulo: Contexto, 2009.

DADALTO, M. C. Cenas de violência na tessitura entre imigrantes italianos e brasileiros no interior do Espírito Santo. Boletim do museu paraense Emílio Goeldi, Ciências Humanas,

v. 12, p. 189-200, 2017.

DERENZI, L. S. Os italianos no Espírito Santo. Rio de Janeiro: Artenova, 1974.

DUARTE, M. E. L. Do pronome nulo ao pronome pleno: a trajetória do sujeito no português do Brasil. In: ROBERTS, I.; KATO, M. A. Português brasileiro: uma viagem diacrônica. 2. ed. Campinas: Ed. da UNICAMP, 1996.

FARACO, C. A. O tratamento você em português; uma abordagem histórica. Fragmenta, Curitiba: Ed. da UFPR, n. 13, p. 51-82, 1996.

FRANCESCHETTO, C. Imigrantes do Espírito Santo. Vitória (ES): Arquivo púbico do Estado do Espírito Santo, 2014. (Canaã, v. 19).

FRANZINA, E. A grande emigração: o êxodo dos italianos do Vêneto para o Brasil. Tradução Edilene Toledo e Luigi Biondi. Campinas: Editora da UNICAMP, 2006.

GONÇALVES, C. R. Uma abordagem sociolinguística do uso das formas você, ocê e cê no português. 2008. Tese (Doutorado em Linguística) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, 2008.

KLIPPEL-MACHADO, R. Práticas de oralidade e de escrita nas aulas de português em contexto de diversidade linguística: o contato entre as línguas portuguesa e hunsrückisch em Marechal Floriano, ES. 2018. Dissertação (Mestrado Profissional em Letras) –Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal; Instituto Federal do Espírito Santo, Vitória, 2018.

LABOV, W. Sociolinguistic patterns. Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 1972.

LABOV, W. Principles of Linguistic Change: social factors. Oxford: Blackwell, 2001.

LOPES, C. R. dos S. O quadro dos pronomes pessoais. Rio de Janeiro: manuscrito. 2003a.

LOPES, C. R. dos S. Vossa Mercê > você e Vuestra Merced > Usted: o percurso evolutivo ibérico. Linguística, ALFAL, v. 14, p. 173-190, 2003b.

LOPES, C. R. dos S.; OLIVEIRA, T. L.; CARVALHO, B. B. A. de. A expressão da 2ª pessoa do singular: variação e percepção numa abordagem experimental. Todas as Letras, São Paulo, v. 18, n. 2, p. 117-132, 2016.

LUZ, M. dos S. Fórmulas de tratamento do português. Revista Portuguesa de Filologia, Coimbra, v. II, T. I-II, p. 256-363, 1956.

MARTINUZZO, J. A. Germânicos nas terras do Espírito Santo. Tradução Helmar Reinhard Rölke. Vitória: Governo do Estado do Espírito Santo, 2009. Edição bilíngue Português e Alemão. Disponível em: http://bit.ly/2SclKt7. Acesso em: 24 ago. 2018.

MATRAS, Y. Language contact. Cambridge: Cambridge University Press, 2009.

MENÓN, O. P. O sistema pronominal do português do Brasil. Letras, Curitiba: Ed. da UFPR, n. 44, p. 91-106, 1995.

MENÓN, O. P. Pronome de segunda pessoa no sul do Brasil: tu/você/o senhor em Vinhas da Ira. Letras de Hoje, Porto Alegre, v. 35, n. 1, p. 121-164, mar. 2000.

MOREIRA, T. H.; PERRONE, A. História e geografia do Espírito Santo. 8. ed. Vitória: [s.n.], 2007.

MYERS-SCOTTON, C. Multiple voices: an introduction to bilingualism. Oxford: Blackwell Publishing, 2006.

MONTRUL, S. El bilinguismo en el mundo hispanohablante. West-Sussex, UK: Wiley-Blackwell, 2013.

NASCENTES, A. O tratamento de “você” no Brasil. Letras, Curitiba/PR: Ed. UFPR, v. 6, n. 5, p. 114-122, 1956.

OLIVEIRA, J. T. História do estado do Espírito Santo. 3. ed. Vitória: Arquivo Público do Estado do Espírito Santo, 2008. Coleção Canaã, volume 08. Disponível em: www.ape.es.gov.br. Acesso em: 05 mar. 2014.

OLIVEIRA, M.; RAMOS, J. O estatuto de ‘você’ no preenchimento do sujeito. Comunicação apresentada no Encontro da Alfal, Costa Rica, 2002.

PEREIRA, E. C. Grammatica histórica. 9. ed. São Paulo: Nacional, 1935. (contém Prólogo datado de 1915). Disponível em: http://bit.ly/2G9lHcG. Acesso em: 23 dez. 2014.

PERES, E. P. O uso de você, ocê e cê em Belo Horizonte: um estudo em tempo aparente e em tempo real. 2006. Tese (Doutorado em Letras/Linguística) – Faculdade de Letras, Universidade Federal de Minas Gerais, 2006.

PERES, E. P. Aspectos sócio-históricos do contato entre o dialeto vêneto e o português no Espírito Santo. Revista (Con)textos Linguísticos, Vitória, v. 8, n. 10.1, 2014. Disponível em: http://www.periodicos.ufes.br/contextoslinguisticos. Acesso em: 02 mar. 2015.

PERES, E. P.; DADALTO, M. C.; BOTTER, B. A imigração italiana e os contatos linguísticos no Espírito Santo. In: FROSI, V. M.; MISTURINI, B. Imigração italiana: estudos e pesquisas. São Leopoldo: Oikos, 2016.

PETERLE, B. D. Análise sociolinguística da realização do ditongo nasal tônico <ão> em São Bento de Urânia, Alfredo Chaves/ES: o papel da variável sexo/gênero. 2017. Dissertação (Mestrado em Estudos Linguísticos) – Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, 2017.

RAMOS, J. O uso das formas você, ocê e cê no dialeto mineiro. In: DA HORA, D. (org.). Diversidade linguística no Brasil. João Pessoa, PB: Idéia, 1997. p. 43-60.

RAMOS, J.; OLIVEIRA, M. Pronomes de segunda pessoa: uma abordagem diacrônica. Comunicação apresentada na Reunião da ANPOLL, Gramado, RS, 2002.

SALETTO, N. Donatários, colonos, índios e jesuítas: o início da colonização do Espírito Santo. Vitória: Arquivo Público do Estado do Espírito Santo, 2011. Coleção Canaã, volume 13. Disponível em: www.ape.es.gov.br. Acesso em: 04 mar. 2014.

SANKOFF, D.; TAGLIAMONTE, S.; SMITH, E. Goldvarb X – A multivariate analysis application. Toronto: Department of Linguistics; Ottawa: Department of Mathematics, 2005. Disponível em: http://bit.ly/2NYmzaO. Acesso em: 04 mar. 2014.

SCHERRE, M. M. P. Variação dos pronomes tu e você. In: MARTINS, M. A.; ABRAÇADO, J. (org.). Mapeamento sociolinguístico do português brasileiro. São Paulo: Contexto, 2015.

VILAÇA, A. Receita para um romanceiro; São Bento de Urânia. Vitória: SEBRAE, 2010.

VITRAL, L. A forma CÊ e a noção de gramaticalização. Revista de Estudos da Linguagem, Belo Horizonte, v. 4, n. 1, p. 115-124, jan./jun. 1996.

WEINREICH, U. Language in contact: findings and problems. Paris: The Hague Mouton, 1970 [1953].




DOI: https://doi.org/10.21165/el.v48i2.2357

Apontamentos

  • Não há apontamentos.


Direitos autorais 2019 Estudos Linguísticos (São Paulo. 1978)