A criança e o linguista: modos de habitar a língua?

Cláudia Thereza Guimarães de Lemos

Resumo


Este artigo tem como ponto de partida o fato de que a natureza heterogênea e imprevisível da fala de crianças, assim como sua mudança em direção à fala de adultos não são passiveis de ser descritas nem explicadas por teorias linguísticas. Para mostrar essa dificuldade, é trazido em consideração o trabalho desenvolvido por Roman Jakobson com o objetivo de submeter não só a fala de crianças, mas também a afasia e a poesia às leis gerais da linguagem, apagando exatamente o que as distingue da linguagem ordinária. Em contraste com isso, interpreto a fala da criança e sua mudança na direção da fala do adulto, com base na psicanálise e, particularmente, na afirmação de Jacques Lacan de que o sujeito é um efeito de haver linguagem e de que, portanto, tornar-se falante implica o recalque da posição de objeto do Outro.


Palavras-chave


fala de crianças; efeito de linguagem; recalque originário

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